sexta-feira, 6 de junho de 2008

Natal de 1969

Na véspera de natal,logo pela manhã,acabamos a patrulha e fundeamos frente ao porto na Beira.
Entre todos decoramos a tolda com bandeiras,e montamos mesas corridas,era o primeiro natal a bordo e em África.
O comando decretou que só haveria licenças após o jantar,queria nos todos juntos,era uma noite especial.
Com o pensamento nos nossos familiares ausentes,mas em sua substituição tínhamos a família de bordo,e era com esta família que iríamos jantar.
O jantar decorreu da melhor forma,foi uma verdadeira festa de convívio,no final entre todos arrumamos todos os materiais,e aprontamo-nos para ir a terra,era só para beber um copo,pois naquela noite o movimento na cidade deveria ser nulo.
Foi estabelecido o horário da embarcação da capitania que nos faria o transporte terra / navio.
Logo que a embarcação acostou ao portaló,o Rui entrou ,foi mandado sair,porque por norma entravam primeiro os oficiais,seguidos dos sargentos e só depois os praças,o desembarque era da mesma forma.
Quando chegou a nossa vez de embarcar,chamamos o Rui,respondeu que já não ia.
Em terra bebemos um copo,combinamos ir todos para bordo na embarcação da 1 hora ´,porque a próxima seria ás 7 horas da manhã.
Perto da nossa hora de embarque,correu pelos sítios onde estávamos,a informação,que havia um problema grave a bordo da fragata,e já se falava em um morto,todos em correria nos dirigimos para o cais,efectivamente algo não estava bem a bordo,a embarcação da capitania descia e subia o rio,passava perto de nós,embora os chamasse-mos nem nos respondiam,os nossos botes navegavam no rio,holofotes apontados á água,e ouvíamos do cais transmitirem ordens a bordo,embora audivéis,mas não conseguíamos decifrá-las ,o que se estava a passar era mesmo grave.
No grupo alguém disse foi o Rui,ficamos a aguardar no cais sem nada poder fazer,era já dia quando nos vieram buscar,o nosso receio confirmou-se, tinha sido o Rui, tinha desaparecido nas águas do rio Pungué.As lágrimas corriam mesmo nos rostos mais duros.
Foi um dia triste,acabavamos de perder um colega e amigo,tomamos conhecimento que o Rui,se encostou a balaustrada a ré,deve-se ter desequilibrado e caiu ao rio.
Apareceu numa praia quase dois dias depois,fomos ao hospital reconhecer o corpo,do fardamento o que tinha era o cinto e os sapatos,reconhecemo-lo pelo cabelo quase encaracolado e por uma tatuagem no braço igual ás nossas.
O seu funeral realizou-se para o cemitério de Santa Isabel na Beira.
Após as honras militares,despedimo-nos do nosso amigo.
Os seus pertences pessoais,foram recolhidos por um oficial e dirigidos ao Ministério da Marinha em Lisboa,que os faria chegar á sua família,da sua família só sabíamos que eram da zona de Barcelos,nada mais.

Rui Carneiro dos Santos 1.º Grumete Manobra - 810/67

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