sexta-feira, 18 de julho de 2008

Comissão

Quem julga, que a nossa vida militar a bordo de um navio de guerra,era puro turismo engana-se. Tínhamos os trabalhos de manutenção dos equipamentos,manutenção do navio, limpezas,pinturas ajudar na cozinha, a navegar os serviços de quarto,máquinas,leme,vigias etc.
Atracados ou fundeados,os mesmos trabalhos,não tínhamos o serviço de navegação,passávamos a ter o serviço de vigilância e segurança do navio.
Atracados,ajudávamos a meter aguada (água doce) abastecimento de viveres e material para a cantina,e a baldeação do navio com água doce.
As condições de habitabilidade no navio eram mínimas,sem ar condicionado,no interior do navio,atingia-se elevadas temperaturas.
Não tínhamos televisão,nem rádio (havia alguns pela guarnição,e raramente se conseguia ouvir música)
Não tínhamos Internet fixa,nem móvel, não tínhamos telemóvel,para falar com os familiares ou enviar sms.
Gratuito a bordo só tínhamos a água.Havia uma excepcão para os grumetes, que tinham alimentação e medicação gratuita,todos os outros a partir de marinheiro inclusive,descontavam parte do seu vencimento para a alimentação,se solteiros descontavam mais,se casados descontavam menos,e pagavam uma parte da medicação comprada na farmácia militar,a bordo gratuita.
A roupa lavada na lavandaria de bordo,ser ser passada a ferro,ficava-nos mais caro que enviar a uma lavadeira em terra.
A sapataria de bordo,cobrava mais caro pelo arranjo dos sapatos,que o sapateiro em terra.
Só nos servíamos da barbearia de bordo,porque tínhamos que sair com o cabelo cortado,tipo corte militar,e mesmo pagando caro,não perdíamos tempo num barbeiro em terra.
O correio,quando a navegar,amontoava-se no Serviço Postal Militar,e quando o recebíamos era aos montes e as primeiras cartas já estavam desactualizadas.
Para enviar uma carta pagávamos um selo igual aos restantes portugueses,os Aerogramas eram grátis,mas demoravam semanas a chegar ás nossas famílias.
Tínhamos uma viatura distribuída ao navio (não sei,ou sei para quem) se tínhamos que nos deslocar ao Hospital (no meu caso ) na Beira,para uma consulta,recebi a guia de marcha e palmilhei ao sol mais de 2 Km até chegar ao centro da Beira para apanhar um autocarro(machibombo)e paguei o transporte do meu bolso,no regresso aventura idêntica ,em Luanda para levantar um medicamento que não existia a bordo,tive de me deslocar á farmácia do Hospital Militar,doente,tive de fazer o percurso de autocarro ida e volta,pago do meu bolso,e o navio tinha uma viatura distribuída.
Para ir-mos para África foi preciso requisitar mais fardamento branco,fomos logo presenteados com um desconto mensal no vencimento,a mim calhou-me 60$00 Escudos mês,até ao final da comissão.
Só nos faltou mesmo foi pagar o combustivél do navio para poder-mos ir a África a banhos e voltar.
Como se sentiriam os marinheiros de hoje,se fossem tratados da mesma forma que nós fomos pelo governo,que nos enviou para África.
Decerto as suas associações,fariam manifestações,chamariam a comunicação social,TVI,ou o 24 Horas, e opunham-se á saída do navio.
Mas depois destas contrariedades,ressalvamos que nos sentimos honrados e orgulhosos,por termos cumprido a missão que nos incumbiram.
Chegamos numa manhã a Lisboa,quase despercebidos,nem um obrigado recebemos,demos dois anos da nossa vida por uma causa justa ou injusta,que a história nos dirá depois.
Com o nosso destacamento para outras unidades,partiu-se o elo de camaradagem que existia,mas graças ao Vitor, e ao CMG Possidónio Roberto,que conseguiram com muito trabalho e dedicação reunir um pequeno numero de ex elementos do navio,anualmente vamos-nos encontrando,e em alguns casos vamos conversando e encontrando -nos,com alguma regularidade,tentando encontrar outros amigos que nunca vieram ao nosso encontro anual.

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