segunda-feira, 24 de novembro de 2008

CIRURGIA A BORDO

Estive à conversa com o Sr. Sargento Enfermeiro Medina, que reside perto de mim, relembrando a nossa comissão, aliás conversa obrigatória sempre que nos encontamos.
Lembrou-me então o Sr. Medina de uma intervenção cirurgica feita a bordo pelo Dr. Ramiro Correia e ele próprio. E que bem que eu me lembro pois de alguma forma estive ligado ao elemento da FRELIMO que tinha sido ferido , com uma bala na perna, numa operação de nomadização feita por um DFE, que não me recordo qual,mas cujo Imediato era do meu curso da EN, 2º Ten. FZE Francisco Pina, entretanto e infelizmente, já falecido.
O guerrilheiro ferido nunca abriu a boca para nada, parecendo que ,ou era mudo ou não entendia nem falava português.
Na operação a que foi sujeito , com sucesso, foi-lhe extraído o projectil, e medicado com potentes antibióticos por causa de possíveis infecções.
Pasados dois ou três dias de convalescença fui nomeado , para tentar saber algo sobre aquele personagem. Com o mar calmo e um sol radioso, leveio-o para o castelo da prôa, para que se sentisse livre e comecei a fazer-lhe perguntas banais, sobre a sua possivel familia. o que fazia, onde morava, se tinha ido à escola, se gostava do Benfica etc. etc. NADA DE NADA.
Muita conversa,da minha parte, mas dele, o silêncio era absoluto, embora eu tivesse convicto de que ele percebia tudo o que lhe perguntava.
De acordo com as normas em vigor logo que ghegámos a terra (Mocimboa da Praia) o guerrilheiro deveria ( e foi ) ser entregue à Aministração local que julgo eu o levaria para os "cuidados" da PIDE, afim de ser devidamente interrogado.
Antes de fundearmos, ainda estive à conversa (a ultima) com ele, dizendo-lhe o que iria acontecer, e para meu espanto disse-me:
-Por favor,dá-me um cigarro.Estudei engenharia na Bulgária,e sei porque luto. Tu sabes porque lutas ? Adeus.
Foi desembarcado com uma papeleta médica com os medicamentos a tomar,e que o acompanhavam,cedidos pelo navio.
Semanas depois passámos de novo por Mocimboa e o Sr. Medina, desembarcou de licença, e em terra foi estranhamente seguido por 2 individuos prêtos. Tentou despistá-los mas não conseguiu.
A páginas tantas, um deles dirigiu-se ao nosso Sr. Medina e estabeleceu-se o seguinte diálogo (mais ou menos).
- Desculpe, o Sr. é o enfermeiro da Fragata, não é ?
-Sou, porquê ?
-Obrigado pelo que fez pelo meu primo, mas ele morreu passados 5 dias de ter desembarcado, por falta de tratamento com antibióticos.
Era assim a guerra.

1 comentário:

António Moleiro disse...

Foi com enorme satisfação que soube que o nosso "velho" Sargento Enfermeiro Medina (Oficial na reforma) se vai encontrando com o Sr.Almirante,e que não esqueceu a nossa comissão.